Nos últimos cinco anos, a consultoria de valores mobiliários deixou de ser um nicho quase invisível para se consolidar como peça central no ecossistema financeiro brasileiro. Impulsionada pela Resolução CVM nº 19/2021, que substituiu a Instrução CVM 592 e trouxe clareza regulatória — reforçando a independência na recomendação, o dever fiduciário e padrões de governança — a atividade alcançou, em 2025, 1.846 consultores pessoa física ativos e 420 consultorias pessoa jurídica registradas, concentradas em São Paulo (155) mas em expansão para centros como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Enquanto isso, a assessoria de investimentos, regida pelas Resoluções CVM 178 e 179/2023, já reúne mais de 27 mil profissionais (ANCORD), mas enfrenta outro ciclo: consolidação intensa, custos regulatórios crescentes e forte pressão competitiva nos grandes polos. Nesse cenário de contrastes, a maturidade da consultoria não será medida pelo barulho do crescimento, e sim pela confiança que o setor for capaz de gerar junto aos investidores.
O que diferencia a consultoria
A Resolução CVM 19 trouxe exigências que mudaram a régua de qualidade:
- Capacitação técnica: certificações reconhecidas ou comprovação de notório saber.
- Dever fiduciário: a consultoria responde diretamente ao interesse do cliente, sem vínculo de distribuição.
- Governança e compliance: nas consultorias PJ, há obrigatoriedade de diretor responsável, política de gestão de conflitos e controles internos.
- Relatórios documentados: toda recomendação deve ser registrada, com exposição de riscos, cenários e liquidez.
Esse arcabouço reduziu barreiras de reputação e abriu caminho para a entrada de investidores institucionais, que demandam transparência e estrutura formal de atendimento.
Consultoria x Assessoria: curvas que se cruzam
A comparação entre consultoria e assessoria mostra dois ritmos distintos, mas complementares:
- Assessoria: expansão acelerada até 2022, hoje marcada pela consolidação, interiorização em regiões ligadas ao agro e pressão tecnológica por eficiência.
- Consultoria: crescimento mais gradual, mas com alicerces regulatórios sólidos e maior estabilidade no número de registros ativos.
No médio prazo, as duas curvas convergem para um mesmo ponto: profissionalização baseada em governança, dados auditáveis e padrões de serviço comparáveis aos internacionais.
A régua do cliente: mais alta e mais complexa
O investidor sofisticado no Brasil — seja HNWI, UHNW ou institucional — exige hoje entregáveis em linha com padrões globais:
- Relatórios técnicos claros e comparáveis, como os exigidos em mercados maduros (SEC/IXBRL nos EUA, ESRS na Europa).
- Visão 360º que combine alocação de investimentos, sucessão, previdência, crédito e proteção patrimonial.
- Transparência em risco e liquidez, com dossiês robustos e revisões periódicas.
Nesse cenário, improviso e materiais genéricos não têm mais espaço. O mercado de consultoria está sendo medido pela consistência de sua entrega.
Impactos estratégicos para consultores
- Posicionamento institucional: Consultorias que estruturarem PJs com governança sólida e compliance efetivo terão mais facilidade de competir por clientes institucionais.
- Expansão regional: A interiorização que marcou a assessoria tende a se repetir na consultoria, mas com ênfase em hubs empresariais locais e linguagem adaptada.
- Consolidação futura: Assim como na assessoria, o ciclo de fusões e aquisições chegará à consultoria. Estruturas frágeis tendem a ser absorvidas; as sólidas, a consolidar.
- Dados como critério de escolha: Em linha com mercados globais, relatórios digitais e integração de dados serão pré-requisitos — e não diferenciais — nos próximos anos.
O futuro é disciplina e coerência
Os últimos 5 anos mostraram que crescimento em número não é sinônimo de maturidade. No caso da consultoria de investimentos, a Resolução CVM nº 19/2021 trouxe o marco regulatório que consolidou independência, dever fiduciário e padrões de governança. O desafio estratégico, agora, é transformar esse arcabouço em diferencial competitivo real, capaz de sustentar a confiança de investidores sofisticados.
Mais do que cumprir normas, o consultor precisa entregar governança e disciplina na prática: relatórios claros e comparáveis, comunicação ajustada por faixa de patrimônio e processos auditáveis que assegurem consistência regulatória e operacional. Essa é a régua que investidores — de alta renda ou institucionais — já utilizam para diferenciar profissionais.
Em um mercado cada vez mais seletivo, ser “fácil de fazer negócio” significa clareza, previsibilidade e coerência. Quem alinhar rigor regulatório com experiência fluida de relacionamento terá espaço para se consolidar como protagonista em um setor que exige menos barulho e mais maturidade.